13 novembro 2006

Como ser um grande arquiteto?


Atendendo a pedidos, darei uma receita, com apenas 30 lições, para aqueles que gostariam de fazer parte de alguns dos mais fechados grupos da arquitetura paulista (digo, paulistana). É importante que se tenha em mente, que o não cumprimento de alguns quesitos, exclui completamente os candidatos. Então, vamos lá, do começo:


1. Você precisa nascer em uma família endinheirada (pelo menos classe média!); esta situação financeira lhe ajudará a passar anos e anos na pindura; se por acaso você nasceu na zona leste ou em outra cidade, terá que ter talento dobrado; agora se seus pais forem intelectuais, vá direto para o ítem 4;

2. Você precisa ser um bom filho (drogas são permitidas, mas só coisas leves, heim!), um bom aluno, fazer inglês e saber um pouco de tudo; enfim, ser meio nerd (pensando o quê, o parnaso tem seu preço!);

3. Você precisa estudar em uma escola que condiz com as regras 1 e 2; o Santa Cruz é o ideal;

4. Você precisa entrar na FAU/USP; em qualquer outra escolha, você está excluído do jogo;

5. Na faculdade, faça o gênero CCC (calma, significa cdf-culto-cool); não se misture com outros alunos que não se encaixam neste perfil; atraia os colegas parecidos com você que serão muito importantes no futuro, pois serão seus sócios. Se você tiver sorte, sua geração será precedida de um vazio histórico e aí você terá mais chance; caso contrário, poderá ser engolido pela geração mais velha;

6. Na hora de arrumar um trabalho (sim, ele é necessário!), procure um arquiteto que se encaixa no seu gênero. Exemplos não faltam. O Eduardo, o Marcos, o André e o Guilherme, por exemplo, pegam bem (o Ruy, nem pensar, você quer ser excluído do jogo?); atenção: só faça estágio no escritório do Joaquim se você quiser ser diferente, e você tem que ter ciência do preço que irá pagar; e outro ponto: se você escolher o 'Paulinho' poderá pular algumas jogadas, mas terá que engolir alguns sapos; aprenda bem as normas da "clássica" escola: é assim que se projeta;

7. Se por sorte você tiver autocrítica e perceber que não será bom arquiteto, passe a escrever: seus colegas irão precisar de avalistas para os livros que farão: você será excluído do jogo, mas seguirá achando que está jogando;

8. Esqueça todos os sonhos de consumo: você nunca terá um Audi nem irá viajar de 1° classe; restaurantes caros, nem pensar; se estes desejos forem muito fortes, vá para o Mackenzie e mude de estratégia;

9. Se você for homem, use roupas sem pensar na moda: isso é fútil; se for mulher, faça o gênero “bicho-grilo chique”;

10. Vida sexual: ninguém em seu meio é moralista; ou seja, tá tudo liberado;

11. Faça, se possível, um estágio no exterior; não é necessário ser em um escritório reconhecido: qualquer um vale.

12. Reúna a turminha e abra seu escritório (desculpe, atelie!) nos primeiros anos de formado, a, nada de ficar perdendo tempo trabalhando em grandes escritórios!;

13. Enfrente a dureza econômica com brio: nos primeiros anos, seu faturamento é de 500 reais!

14. Ganhe algum concurso importante: isso é imprescindível e lhe tirará da pobreza franciscana. Caso contrário, está excluído do jogo. Se a obra não for executada, não é o fim: o dinheiro do projeto executivo é que o sustentará por anos e anos;

15. Além dos concursos, é necessário fazer algum projeto de pequeno porte: serve a casa de um amigo, primo, da tia ou do papai; não importa. Estes são os projetos da sua vida, sem eles você não será nada! Se não realizar, está fora do jogo; não esqueça de pensar nos efeitos de fotografia que você vê nas revistas estrangeiras. Isso também é imprescindível. Ah, já ia me esquecendo: se for uma casa de veraneio, chame o Hélio para estruturar: ele é um arquiteto de mão cheia!


16. Com a obra concluída, procure o Nelson para fotografar (não pode ser outro!). Confie nele - mesmo se a obra não é grande coisa - pois ele saberá, na hora em que todos os gatos são pardos, traduzir a casa da tia em grandes fotos. Como dizem os críticos, “as obras são fotogênicas”.

17. Procure, ou melhor, peça para o Nelson procurar uma revista de arquitetura (é chato dizer que quer publicar! Não esqueça: você é blasé). É batata, será publicado, mesmo porque não existem muitos concorrentes e as revistas precisam de algo exótico para publicar entre os prédios de escritório;

18. Repita as operações 15/16/17 algumas vezes, pelo menos uma vez por ano.

19. As operações 14 e 18 irão lhe ajudar a ser lembrado por alguns colegas de faculdade que trabalham no poder público: eles lhe darão mais serviço; se essa ajuda vier do ramo familiar, melhor; isso é importante para qualificar sua obra com um apelo “social”;

20. Depois disso, peça que o Nelson faça o mesmo com alguma revista internacional; a casa burguesa e a pobreza tem um apelo universal; o êxito nem sempre virá, mas não custa tentar;


21. Para complementar a renda (quer dizer, para ter renda, pois casa da tia não sustenta ninguém!), arrume um emprego em uma faculdade; pode ser qualquer uma, na FAU/USP é mais difícil e paga pior (só não escolha o Mackenzie, heim! Quer por tudo a perder?); só vá para a FAU/USP se você tiver certeza que passará a vida inteira recebendo salário de professor assistente mas, quando for se aposentar, irão ser generoso com o dinheiro da viúva e lhe arrumarão uma aposentadoria gorda;

22. Para ajudar o ítem 21, será mais fácil se você tiver mestrado e doutorado; por isso, cultive a amizade com os professores da pós-graduação da FAU/USP, eles lhe serão úteis; para o trabalho, escolha um tema “nobre”; você chegou até aqui, não ponha tudo a perder!

23. Casamento: tirando algum acidente, a falta de dinheiro fará com que você demore um pouco a ter filhos. Se você for homem, disfarce e não case; se for mulher, case com um colega de escritório (lembre-se do “na riqueza e na pobreza”);

24. Moradia: vá morar em Higienópolis, de preferência em um Artacho Jurado (não pela grife, claro, mas é o único que sua renda pode pagar!). Se você ganhar muitos concursos (ou depois da morte do papai), quem sabe não dá para construir uma casa no Alto de Pinheiros, heim?

25. Escritório: alugue um conjunto na General Jardim. A Vila Madalena não é coisa da sua geração! Não é excludente, mas conta ponto e você pode ir a pé para casa (assim economiza gasolina!)

26. Identifique alguns pares no exterior, nada muito significante nem importante, mas eles irão convidá-lo para palestras, eventos etc (atenção, boca-livre: essa é a única forma de você viajar para lá). Agora, se for algum Montaner, isso pode lhe valer um Priztker!

27. Se a coisa estiver feia, você pode aceitar até uma encomenda imprópria, como as do mercado imobiliário ou coisa do gênero; mas não se esqueça, tal como seus ídolos, negue até a morte e nunca coloque no seu currículo;

28. Como quem não quer nada, apareça numa exposição de arquitetura inventada por você como se não tivesse nada a ver com aquilo. “Me escolheram!”, tem que ser a expressão da sua face.

29. Não ligue para as críticas de que “parece tudo igual” ou é obra de “um só escritório”. Sua ficha vai cair só no futuro;

30. Também não ligue para quem diz (mas não escreve) que a Lina “terá de aparecer” na sua obra: você não tem vocação para ser um Marcelo na vida!



E, por fim, uma dica importante: ignore tudo o que está escrito nos blogs por aí, eles não sabem o que dizem; e não responda nunca; será sinal de fraqueza.

Marcadores:

28 Comments:

Anonymous Bill Clinton said...

Ô Alencastro,
Quero ser um grande arquiteto, mas tenho uma dúvida: Pega mal namorar alunas e/ou estagiárias? Sabe como é, as mazelas da idade vêm chegando, eu ainda investindo na carreira... E o jogo da sedução fica bem mais fácil quando se luta pela mesma causa...

1:40 AM  
Blogger Alencastro said...

Olha, Bill alunas podem dar problemas (também); agora estagiárias, você tem mais experiência do que eu, né?

11:11 AM  
Anonymous Nei Quanfhier said...

Gosto de enigmas. Por isso continuei tentando descobrir o das consoantes e vogais. Não fui além de "cocô" ou "cocô olelê". Desisto, mesmo sabendo que não faz seu gênero.
Mas no quesito siglas - não muito diverso do quesito enigma - você está se superando. CCC = cdf,cult and cool? Está mais para CCC = Comando de Caça ao Coletivo.

Bons tempos aqueles hein!?

4:13 PM  
Anonymous gugala said...

alencastro, ainda bem que vc largou a arquitetura a tempo de poder optar pelo ítem 7. Já eu,
consegui estacionar no ítem 2. E com muito esforço. ahahah

4:16 PM  
Blogger Alencastro said...

Oi Nei, foi você quem disse! Mas, Comando de Caça ao Coletivo é hilário!
E a Vanessa, vai bem?

4:20 PM  
Blogger Alencastro said...

Oi Gugala.
Mas quem disse que eu larguei a arquitetura? Foi ela quem me largou... Esta é a sina do ítem 7: ELES nunca assumem; fica gritando a vida inteira "eu não sou gay, eu não sou gay!"

4:27 PM  
Anonymous carlos noel said...

alencastro,
to começando a fechar o teu perfil; além de arquiteto frustrado, vc é gay; que mais ? esse tel item 7 me faz lembrar da sessão: "casas do Brasil"...
engraçado, ... fui lendo os teus 30 itens e percebendo como vc está tão colado na imagem que pixa.
genial!

4:42 PM  
Blogger Alencastro said...

"Casas do Brasil", não entendi? Tá achando que eu sou o Sandro ou o Vasco? Ou será que eu sou os dois?
Não se esqueça que o Sandro é na verdade Alessandro, que começa com Ale; e Vasco parece com Castro...

Ora, meu nome é Alencastro!

Agora quanto a minha sexualidade, como assim gay? Saiba você que "eu não sou gay, eu não sou gay"!

4:54 PM  
Anonymous Anônimo said...

Alencastro, parabens, leitura perfeita e precisa...agora estou certo que você é um arquiteto frustrado, portanto deve continuar a escrever mesmo...é o que sabe fazer.
Pode fazer de conta que não se importa, ser satírico, mas estou certo que tem uma invejinha pulsante aí, o tempo todo!

9:12 PM  
Anonymous peri s.c. said...

Seria mais proveitoso para a patuléia estundantil das "facul" ( argh! )ou para os entrevados recém-formados ,
que o Oráculo Alencastriano indicasse os caminhos para que se tornem famosos decoradores .

11:05 AM  
Anonymous Anônimo said...

Caro Sr. "Alencastro"

A utiização do blog é uma das grandes revoluções da era da internet e se mostra bastante ágil e, em geral positiva, pela rapidez na divulgação das informações e idéias.
Apoiamos essa inciativa democrática e cultural.
Informamos que essa prática tem sido exaustivamente discutida nos congressos jurídicos sobre o uso da internet.
Alguns cuidados devem ser tomados para se manter o bom nível das informações e não incorrer em práticas ilícitas.
Ao citar diretamente o nome de pessoas e principalmente de renomadas instituições (nosso caso), o Sr. (e também seus comentaristas) devem ser cuidadosos e respeitar a "boa etiqueta da internet", evitando a prática caluniosa. O tem ocorrido sistematicamente nesse blog.

Portanto esclarecemos:

1) Todo o conteúdo desse blog encontra-se impresso e registrado em cartório de títulos e documentos da cidade de São Paulo.
2) A relação Site > IP > Provedor > usuário, é linear e facilmente identificável por vias judiciais.
3) Ato contínuo nas citações nominais e caluniosas, será lavrado boletim de ocorrência na delegacia especilaizada de crimes pela internet.
4) O blog não se apoia na liberdade de imprensa.

Estando certos de práticas mais cuidadosas e responsáveis no futuro, agradecemos.

Anônimo com OAB.

11:52 AM  
Blogger : : : m a v e r i c k : : : said...

a q ponto chegamos...tem até adEvogado querendo ser arquiteto...rs

1:20 PM  
Anonymous Anônimo said...

anônimo 1º

se fosse o caso, faria diferente, mas em essência, equivalente.
acertou nas moscas alen-castro.

prova disso é a reação do "defensor público-coletivo"; autoritária e pilantra, alegando serem interesses institucionais e públicos os seus privados interesses e usando simbólica (se por mais não fosse, pela própria ingenuidade) e ameaçadoramente um pretenso cajado legal.

quer brandir conhecimentos que não tem sobre o uso do Blog, em proveito próprio, bem próprio.

acontece que os Blogs são só um reflexo de movimento mais amplo e incontornável. que encontra espaço e desenvolvimento próprio em âmbito institucional crescente.

é o começo do fim da canalha usurpadora.

5:09 PM  
Anonymous Anônimo said...

Recomendo ao Anônimo 1 que, entre uma porta de cadeia e outra, volte para as aulinhas de língua portuguesa para que consiga se expressar ao menos de forma mais adulta.
Anónimo 3.

8:47 AM  
Blogger Alencastro said...

Anônimo, "leitura perfeita e precisa", que história é essa de "invejinha pulsante": na verdade, sou um GRANDE invejoso, ora!

11:34 AM  
Blogger Alencastro said...

Oi Peri, aguarde. Em breve: receita para se tornar um famoso decorador!

11:36 AM  
Blogger Alencastro said...

Caríssimo Dr. Blog dos Advogados

Quer dizer que a instituição que o senhor representa está se sentido ameaçada pelo meu bloguinho? Quanta honra! Mas eu não entendi só uma coisa: a receita que dou é para ser "um grande arquiteto"; será que tem alguma escola querendo o contrário?

11:41 AM  
Blogger Alencastro said...

Pode Maverick?

11:42 AM  
Blogger Alencastro said...

Anônimo 1°,
Chamaram o defensor público do CCC. Viu só? Meu blog está no cartório!

11:45 AM  
Blogger Alencastro said...

Anônimo 3: deixa o anônimo 1° em paz!

11:47 AM  
Anonymous Geraldo said...

Demais o jogo (refletindo em qual item eu estou vacilando / tentando traduzir os itens locais paulistanos para a minha realidade cearense)! Sou arquiteto, minha mulher também. Triste sina. Identificação total com o item 23, éramos colegas de escritório, casamos... Filho? Com 8 anos de casamento.

10:46 PM  
Anonymous Anônimo said...

(anônimo 1º)

é alen-castro, está agora marcado.
será o fim do blog?
olha, tem um consolo: do xilindró vc terá tempo de sobra para continuar com seu estimulante e muito bem-humorado blog.
hahaha

o com OAB, mas "sem noção", talvez, confundido, vá, depois, lhe oferecer serviços de porta de cadeia, como alguém aqui já mencionou.

1:14 AM  
Blogger Alencastro said...

Oi Geraldo,
Você está achando divertido pois é do Ceará, terra de grandes humoristas! Já por aqui, o pessoal não custuma tem muito bom humor...

10:53 AM  
Blogger Alencastro said...

Fim do blog? Nada, vou arrumar uma cadeia com bluetooth...

10:57 AM  
Anonymous grazzini@ig.com.br said...

hehehe ótimo! tanto o post quanto os comentarios!

1:43 AM  
Anonymous grazzini@ig.com.br said...

Aliás, esqueci de comentar, quanto ao fato juridicamente qualificado, não houve intento algum do autor de direcionar sua críticas ou comentários, a terceiros determinados, somente publicação, via blog, e sem controle do acesso a leitura do mesmo, o que descaracteriza completamente qualquer desejo de caluniar ou difamar alguém.

DEIXA O HOMEM BLOGGAR!!!!

2:00 AM  
Blogger Alencastro said...

Apoios insuspeitos são sempre bem vindos, caro Grazzini.

2:44 PM  
Anonymous Anônimo said...

Caro Alencastro

Veja só o que recebi...

"Quanto maior o ego, maior é o estrago"

Meu professor Renato Bonelli, crítico, historiador da arte e ex-diretor da Escola de Restauro de Monumentos da Universidade de Roma – La Sapienza, dizia que os inimigos mais perigosos do patrimônio cultural são os arquitetos modernos.

O projeto do renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha de reforma da edificação da Secretaria de Educação, situada na Praça da Liberdade de Belo Horizonte, protegida pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - Iepha, confirma a máxima do conceituado teórico do “restauro crítico” italiano.

Paulo Mendes da Rocha sabe que a arquitetura não é constituída somente de fachadas, mas também de intenções plásticas, espaços internos, volumetria, ornamentos, sistemas construtivos, técnicas e materiais de construção. Como arquiteto, com uma reconhecida trajetória profissional, e sobretudo como ex-professor da FAU/USP, deveria ter se interessado um pouco pela história do restauro e pela teoria moderna de restauração, hoje universalmente reconhecida e aceita, antes de se aventurar na sua nova atividade de intervenção em bens culturais; ou então se espelhado no exemplo do Mestre Lúcio Costa, que revolucionou a arquitetura e o urbanismo no Brasil, sem ter contribuído para a destruição de nossas heranças culturais. Muito pelo contrário; Lúcio Costa, com seu discernimento e sabedoria, tinha tanto cuidado e respeito com o patrimônio histórico e artístico nacional que dizia: Em Ouro Preto menos é mais.

Projeto semelhante também de autoria de Paulo Mendes da Rocha para o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro foi prontamente rejeitado em 2005 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan.

Cabe agora ao Iepha, um dos mais prestigiados institutos de preservação do patrimônio cultural do País, destombar a edificação para promover a marca do arquiteto moderno e da Fiemg na Praça da Liberdade. E também explicar à sociedade civil e aos Ministérios Públicos Estadual e Federal, o porquê da sua decisão de interromper a transmissão para o futuro dos valores republicanos, que o conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade testemunha e representa.


Benedito Tadeu de Oliveira -arquiteto, doutor e diretor do Iphan de Ouro Preto

4:42 PM  

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