24 agosto 2007

Cinismo ou cara-de-pau?


O tema da Trip deste mês (n°158) é o acolhimento. Assinada por Luara Calvi Anic, a reportagem mais interessante chama-se 'Já faz parte da família', que narra a vida de empregadas domésticas cuja relação com os patrões "são o melhor exemplo do esgarçado limite entre o público e o privado no Brasil".

Lá pelas tantas, entra em questão os dormitórios de empregada. Um box na matéria, intitulado 'Depósito de gente', o arquiteto Israel Rewin - que outrora foi um dos maiores aprovadores de plantas de São Paulo - foi ouvido. Sobre o tamanho das quartos (a lei estipula no mínimo cinco metros quadrados, mas geralmente os quartos possuem 3,5), ele diz que "é melhor do que morar no extremo da periferia".
Mais adiante, a matéria conta que "segundo Israel, normalmente o espaço é projetado como home office ou depósito, passa pelo crivo da prefeitura, já que a lei não estipula um tamanho para dependências deste tipo e depois o imóvel é vendido como 'dependência de serviço' com direito a cama, armário e banheiro ilustrando a planta. No desenho tudo cabe, agora no espaço físico, 'o desaforo vai sempre para a empregada', lembra Israel".

E ai: é cinismo ou cara-de-pau?

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19 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Eu não sei. E nem me sinto apto a avaliar as palavras do arquiteto.

Penso, no entanto, que a questão está longe (tempo e distância) de ser apenas e/ou principalmente arquitetônica. A arquitetura sem dúvida é um dos ramos dessa questão complexa, mas não a mais importante, não a primeira.

1:00 PM  
Anonymous Christian Rocha said...

Eu não sei. E nem me sinto apto a avaliar as palavras do arquiteto.

Penso, no entanto, que a questão está longe (tempo e distância) de ser apenas e/ou principalmente arquitetônica. A arquitetura sem dúvida é um dos ramos dessa questão complexa, mas não a mais importante, não a primeira.

1:00 PM  
Blogger Alencastro said...

Oi Chistian, acho que o comentário entrou duas vezes...

Sim, a arquitetura não é a única questão deste embrólio. Mas é só a legislação mudar e os arquitetos terem outra atitude que as coisas não seriam assim, né? É nosso último resquício da senzala, esmagada em 3,5 metros quadrados...

1:54 PM  
Anonymous Anônimo said...

Poderiamos fazer uma enquete e ver quem realmente tem empregada que dorme no apartamento do empregador.... O cinismo faz parte do hábito de sempre se projetar com diversos usos . principalmente esta área.... Teremos sempre a relação mais novo apartamento, mais caro , menores os ambiente, menores os confortos do mínimo de vivência.... O problema da senzala é de todos nós , e não desta classe especifica... precisamos abrir os olhos alem do projeto....

8:30 PM  
Blogger Fernando L Lara said...

concordo com voce alencastro, a questao eh arquitetonica sim de certa forma. Nos anos 40 tivemos dois excelentes projetos premiadissimos: Pedregulho e Parque Guinle. Nossa sociedade infelizmente descartou a proposta Pedregulho (servicos coletivos acabando com a "servidao" em casa unidade, e adotou a proposta Parque Guinle: miniaturas das casas do sec 19 emplilhadas verticalmente. A proposito, e as portas de servico, quando eh que vao acabar. Eu sempre pergunto aos meus alunos porque eles insistem nas duas portinhas lado a lado e aparece cada desculpa.... menos o preconceito.
gostei do post.

6:40 PM  
Anonymous Alberto said...

Aprovação de projeto é uma ficção em São Paulo.

12:51 PM  
Anonymous maverick said...

nem cinismo, nem cara de pau. é lamentável...eu já tinha lido a reportagem por isso me comovi a escrever q a questão é o respeito ao cidadão e q o arquiteto sim, pode mudar isso...construa habitações populares de interesse social em áreas periféricas ao invés de manda-los a senzala Sr. Weinfeld.

4:24 PM  
Blogger Alencastro said...

Meu também?

4:19 PM  
Blogger Alencastro said...

Entrada de serviço também dava um post...

4:20 PM  
Blogger Alencastro said...

Como assim, Alberto?

4:20 PM  
Blogger Alencastro said...

O que tem a ver o coitado do Isay, Mave? Será que você não trocou o nome do arquiteto da colônia?

4:21 PM  
Anonymous Alberto said...

Assim: não há limites para a "negociação". Tudo é aprovável.

Agora, a "entrada" de serviço realmente dá uma discussão, porque pode-se argumentar uma facilidade operacional de gestão do prédio, de saida de lixo à entrega de jornais. Agora a cultura de fazer funcionário subir obrigatoriamente por um ou por outro, acredito que realmente varia de imóvel

7:16 PM  
Anonymous koob said...

Nao acredito que 3,5m seja um tamanho ideal , longe disto , mas muitos barracoes sao menores que isto , e nao oferecem , eletricidade , nem agua , nem esgoto. Alem do mais , 3,5 metros quadrados no Japao , e luxo pra poucos.
Israel foi apenas realista!

11:10 PM  
Blogger Alencastro said...

Tudo, Alberto, tudo...

Dependendo do porte do apartamento, isso é desejável pelo 'estilo de vida' neoburguês: madames-empregados, visitas-entregadores etc. Enfim, luxo-lixo. Agora, aquele apto de classe média, dois quartos e uma porta do lado da outra, fora e dentro, é ridículo!

12:57 PM  
Blogger Alencastro said...

Mas um realismo cínico, não: "aprovamos depósitos que na verdade são senzalas...". E tá tudo bem!

12:58 PM  
Anonymous Alberto said...

Mas o que o Koob tá falando acho importante: mais que uma questão morfológica, é uma questão simbólica. É inteligente você ter um shaft tecnico que consegue recolher o lixo de 4 apartamentos de uma vez, por exemplo. Não é SÓ uma questão do estilo de vida sei-lá oque, mas passa a ser porque o uso social do espaço se impõe sobre o tecnico. Quanto às famigeradas portas uma do lado da outra, elas são realmente só simbólicas, e portanto burras enquanto arquitetura. E teve muito figurão fazendo disso nas ultimas decadas...

2:59 PM  
Blogger Alencastro said...

Sim, sim...

5:36 PM  
Anonymous gabriel said...

lembrando que a tipologia tradicionalmente usada nos edifícios de apartamento em são paulo (torre em H enfeitadinha sobre cubo de estacionamento "enterrado" isolada do lote e encerrada por muros de "três" metros) acompanha gloriosamente a plantinha típica com o armário de empregados... Quero dizer: é a maior furada do mundo alegar que "espaço é luxo", pois é justamente este tipo de tipologia que acompanha o tal do "espraiamento urbano" (e nem pretendo começar a discutir especulação e assuntos similares).

Agora, sabemos que quem faz estes projetos, mesmo sendo arquitetos (irrita-me às vezes a sobrevalorização de nossa profissão), está invariavelmente subordinado à opinião dos marqueteiros (existe um vídeo - já clássico - na biblioteca da FAU sobre a relação entre marketing e mercado imobiliário), uma gente estúpida que não sabe o que é projeto, pois se baseia apenas em modelos pré-estabelecidos. De nada adianta a atitude dos arquitetos neste caso (não ficariam eles desempregados?). Não quero de forma alguma justificar a prostituição de ninguém... mas a relação entre cultura (casa grande e senzala, etc), marketing, especulação imobiliária e corporativismo profissional é mais funda do que parece.

10:35 PM  
Blogger Alencastro said...

Alguém disse que é rasa?

1:55 PM  

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