16 fevereiro 2007

"Uma ponta de flecha apontada contra..."

Quem me enviou o texto abaixo foi um ilustre leitor deste blog. Ele foi escrito por Marco Negrón, um dos mais importantes urbanistas da Venezuela e publicado no TalQual, um jornal local de opinião. Parece que ele não gostou do projeto (na imagem que ilustra o post) que Niemeyer criou para Hugo Chaves.

Segundo o arquiteto, "ele não me pediu nada, mas achei que ficaria bem esta homenagem. Será um monumento com cem metros de altura". O monumento, "em forma de ponta de flecha apontada para os Estados Unidos", se construído for, ocupará o alto do monte Ávila, imponente formação montanhosa que domina a paisagem de Caracas.

"Niemeyer e o Ávila,
por Marco Negrón

Referindo-se ao maneirismo formal criado por Oscar Niemeyer na arquitetura da então recém inaugurada capital brasileira, Giulio Carlo Argan afirmava em 1961 que a mesma constituía “um claro indício do maior perigo que paira sobre Brasília e que poderia inclusive, se não fosse enfrentado, tornar-se vão o gigantesco esforço cumprido: o perigo de que se transforme, na ausência de uma autonomia, concreta e historicamente fundamentada função econômica ou produtiva, em uma capital ‘simbólica’ estritamente burocrática, inutilmente iludida de encarnar, no mecanismo de seus ministérios e de suas embaixadas, a autoridade ou a universalidade do Estado”.

O tempo se encarregou de confirmar as piores expectativas de Argan: passados quase meio século, aquela segue sendo uma cidade artificial, incapaz de competir com a contraditória vitalidade de São Paulo, o espírito inesgotável do Rio, a riqueza cultural da Bahía ou Recife ou a capacidade inovadora de Curitiba. Tão artificial que muito prematuramente se empenhou em ocultar sua cara feia mas quiçá a mais autêntica das cidades satélites que, como Ceilândia (por “Centro de Erradicação de Invasores” ), alojam aquela população trabalhadora que destoava da vaidosa capital.

Arriscado de ser acusado de necessidade incurável, me atreveria a dizer que, pese o universal reconhecimento que recebeu e que Darcy Ribeiro chegou a considerar “o maior artista vivo de nosso tempo”, nunca conseguiram me convencer a respeito da obra de Niemeyer e não só por ser falsa, inclusive a egocêntrica concepção de cidade criada em Brasília: ainda que criou escassas e notáveis excepções, como a igreja de São Francisco em Pampulha (1940) e o nunca construído Museu de Arte Moderna de Caracas (1954), com demasiada frequência sua obra se vê minada por uma retórica do poder que se expressa tanto em Brasília (1957-1962) como no Memorial de América Latina de São Paulo (1987), mas que se traduz, em última instância, em uma visão de compaixão do povo. O que não teria nada de mal se não envolvesse suas arquiteturas e esculturas na verbalização típica de um certo radicalismo latino americano demodé.

Não pode então surpreender que tenha respondido com tanta rapidez e entusiasmo ao chamado do último caudilho para levantar um monumento sobre o Ávila, evocando um Bolívar cada vez mais reduzido a mera projeção de Chávez. Mas Niemeyer mal conhece a Venezuela, onde só esteve em 1954, sendo duvidoso que conserve uma imagem clara da abrupta cordilheira que Pablo Neruda definiu como os ombros da América e que, com vertigem, cai a pico sobre o mar desde El Palito até Cabo Codera. Não poderia então entender que ela é o verdadeiro monumento, capaz de tragar tudo o que em cima dela for construído, não importa sua altura inevitavelmente humana nem a quantidade de arestas materiais ou mesmo os ideais que aspire exibir."

21 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Alencastro, Você trabalha na revista projeto?
Acho que sim pois as últimas edições foram lamentáveis e você nem se pronunciou.

4:49 PM  
Anonymous Anônimo said...

(anônimo 1°)

obrigado pela oportunidade, alen-castro.

texto interessante. com tempo, gostaria de comentar.

5:07 PM  
Blogger Alencastro said...

Fique a vontade, 1°. Mesmo por que, outro post, só depois do carnaval...

5:14 PM  
Blogger edison hiroyama said...

Caro Alencastro, valeria a pena corrigir a ortografia do 'ariscado'? Bobagem...

Discordo em um ponto do Sr. Negron: a lista de contribuições positivas de Oscar é muito maior.
Sugiro folhear 'The Work of ON' do Papadaki, mas a versão americana da Reinhold Publishing, de 1950.
Inclusive foi nesse livro que Sir N.Foster aprendeu muita Arquitetura (ele mesmo admitiu, mas isso é uma outra história).
Abraços.

5:24 PM  
Blogger Alencastro said...

Água, meu caro quem?, água... Pista errada! O caso é que nas últimas edições da mencionada publicação, nada em chamou a atenção; nem para mais, nem para menos. Me pareceu a mesma toada de sempre. Entende? Até mesmo essa última, de comemoração - um amigo não gostou, e pediu que eu comentasse (não é você, é?)...- mas achei que não merecia um post. Não é nem bom, nem ruim: comentar o que? (se o fizesse, me deteria no exemplar extra, o n°10, que achei divertido...). Mas se o seu intuito era me arrumar um emprego alheio, agradeço seu empenho, meu caro quem?. Mas estou satisfeito onde estou, feliz com a minha insignificância....

5:38 PM  
Blogger Alencastro said...

Oi, _intranse. Fiz a tradução meio rabugenta, sabe? Vou corrigir...

Quanto a contribuição do nosso velho projetista, nunca haverá consenso. Agora, tirando a política que está em jogo, concordo com o Negrón: colocar, mesmo que uma peça de 100 metros, no alto daquele paredão natural, vai ficar ridículo... E eu achava que o projeto era à beira-mar...

5:42 PM  
Anonymous Anônimo said...

(anônimo 1°)

é, assim que recebi a revista projeto vim direto no blog do alen-castro, ver o que tinha sobre.

(não cobro nada, mas tive tal expectativa)

é de causar indignação. me sinto roubado.
os caras deixar de fazer um número da revista, que, com suas matérias corriqueiras, já não é digna (mas continuo pagando, só por não ter alternativa melhor e pq são, com AU, mais alguns de nossos poucos 'canais'...), para olharem para o próprio umbigo e fazerem isto imaginado que também quero - o umbigo deles, não o meu, vejam, que descalabro.

e da forma mais superficial.
é caricato. capas dos números publicados, 'destaques' e uma correlação mal-sugerida (nem de longe realizada como matéria da revista) com fatos "de época".

se fizessem tal coisa como um "catálogo comemorativo" (ao qual, para dar alguma utilidade, eu acrescentaria o índice - impresso), distribuído gratuitamente aos assinantes, mais a revista, seria ao menos tolerável. tipo, coisa ganhada não se escolhe, mas se escolhe o que fazer com...

a AU, que tb acabo de receber, não fica atrás. uma mixórdia. (faço o descontozinho, bem pequeno, de que AU, ao menos mantém suas seções; fracas seções)

essa gente não se sente, absolutamente, na obrigação de 'editar' realmente nada. só têm em mente o invólucro.
embalam em bom papel e à cores, essa merda, mensalmente.

pensem no que são nossas 'instituições arquitetônicas': editoras na área? porcariada, a editora Projeto decaiu veriginosamente (sobre isso, pensem na diferença que é, para os espanhóis e hispânicos - nosotros, por tabela - ter a GG); IAB e demais organizações de classe, meras agremiações particulares...mui particulares; revistas? não cumprem absolutamente o seu papel de informar e promover o debate. deformam e divulgam, primeiro, materiais e técnicas, depois, servem de meio para o marketing de nossos hermanos mais empenhados, comercialmente...

sem falar de fato substancial: a publicação dos projetos é desrespeitosa. com o projeto, com quem projetou e com quem apreciaria o projeto. mirem-se no exemplo de el croquis.

acho que nossas projeto e au, pelo bem da arquitetura e felicidade geral da nação (não só a naçãozinha arquitetônica), deveriam se associar (para unirem esforços, sempre alegam mil dificuldades...) e produzirem, sei lá, dois números por ano de uma revista realmente decente.

6:22 PM  
Blogger Alencastro said...

Não tenho tais ilusões, caro 1°. Pelo menos, não mais...

Não achei, como você, a tal edição cobras e lagartos; como já disse, até curti a n°10, com Candia e Telésforo. Achei espirituosa.

Mas creio que as revistas espelham, sempre, o que se passa com a arquitetura. Aqui ou acolá.
No Brasil, o fato é que não existem leitores. NÃO EXISTE! E a arquitetura que se produz por estas bandas, vamos ser francos, não é lá grande coisa. Junte estas duas coisas e o resultado são as publicações que temos. Já imaginou, você, caro n° 1, ter que escolher projetos para encher uma revista de arquitetura por mês?

Em contrapartida, esta editora e revista espanhola que você citou, por exemplo, sempre tentaram entrar na América Latina, nosso vigoroso mercado... O que arrumaram, no máximo, foram alguns sócios que as passaram para trás. Triste sina.

Também acabo de receber a au. Acho as seções insoças (e custa 23 reais, heim?). Acabo ainda preferindo a projeto - não por que custa custa 15 reais! -, mas sim por que mostra mais arquitetura do Brasil. Na au, há só duas ou três matérias, sempre muito fracas (esse número, por exemplo, uma casinha mais ou menos e um bar!). E se é para ver arquitetura internacional, assino outras que informam melhor.

Bom, mas o post não era sobre isso...

6:51 PM  
Blogger GUGA ALAYON said...

Mas o projeto é a beira mar. Depois das escavações na cordilheira.

7:12 PM  
Anonymous Anônimo said...

(anônimo 1°)


qto erro! em meu comentário anterior.
bom, eu ainda ia 'visualizar' qdo cliquei para publicar, sem querer.

o alberto e o intranse, especialmente, que me desculpem...

7:22 PM  
Anonymous Anônimo said...

Não deixa de ser engraçado ler que "Niemeyer mal conhece a Venezuela", como se isso importasse - melhor dizendo, como se ele se importasse com lugar, espaço, tempo e dinheiro, esses detalhes - para projetar. Concordo que a polêmica sobre o Niemeyer nunca tem fim, mas pela fórmula surrada do debate: os defensores defendem, e com facilidade, a qualidade plástica da sua arquitetura; os detratores apresentam com precisão a atrocidade política e urbanística que elas representam. Daí pra frente, a divisão de águas, cada um julga o que acha mais importante; para mim, não deixa de ser uma comparação de bananas com laranjas. De resto, o Argan já disse tudo o que eu acho - e não conhecia esse texto, grazie mille Alencastro.

7:29 PM  
Anonymous Anônimo said...

(anônimo 1°)

o que se passa com a arquitetura?
ora, no mundo de hoje, justamente no que podemos "aproveitar", o 'globo' é o limite. e nossas revistas atentam pra isso. mas da forma a mais tacanha e servil.

então, a 'falta' de material não é um impedimento absoluto, só relativo, pq, claro, ter acesso e publicar material 'do mundo' tem custos com os quais o nosso 'circuito' não pode ainda arcar, como arcam os outros, justamente, que ‘circuitam’ o mundo.

não foi por outra, que mencionei uma redução de periodicidade e uma 'união' de esforços. seja lá por qual via.
(a que sugeri só foi uma piada, pq implicaria em mexer com brios e 'territorialidades' que são, em si, a nossa própria piada e desgraça - em suma e em duas palavras, o deslumbramento e a viadagem que nos pautam)

(a tal n° 10 encartada é uma prova cabal do descalabro; pelo volume, pelo texto, pelo tom, pela edição enfim; e, sua expressão 'espirituosa' é, para mim, um índice e sintomática)

o que fazem nossos gloriosos IABs, quanto a isto (a união de IABs estaduais não dão conta de publicar uma única revista nacional?), por exemplo;
ora, imitam um 'colégio' no que ele teria, em visão torta, simplesmente, de corporativo (reduto);
por isto, mencionei ‘nossas instituições’. (uma revista, uma editora; cumprindo seus papéis como ‘espaço’ de debate e veículo de divulgação do que se debate, são como que instituições – ops, mas não quero dar esta idéia para nossos picaretas, que usarão o argumento para reivindicar recursos públicos ou outras facilidades para fazerem mais do mesmo, mas em condições mais ‘folgadas’, alegando serem "importantes instituições nacionais")
diria a você que há muito mais a fazer: deves conhecer uma Quaderns?!

quanto à qualidade de nossa arquitetura. concordo com vc, em parte, temos pouca e parca arquitetura.
mas, cuidado, não pelos critérios normalmente ativados (eles nos conduzem a arquitetura mais parca; pra não dizer porca); estes nos levam a valorizar o que, efetivamente, não nos pertence (por mais que se façam esforços para tanto, outra piada – que produzem os nossos ‘copistas tradutores’);

mas, mesmo assim, podemos publicar para além do que aqui ocorre. como faz uma el croquis. que absolutamente não publica somente arquitetura espanhola, como sabes. mas ‘edita’ “hispanicamente”; dá o seu recorte...

trata-se de publicar o “outro” como 'estudo';
ora, outro problema de fundo: em nossas revistas, nada constitui 'estudo'.
o que temos é diverso, mas não mais do que o interesse mais comercial em jogo; travestido.
que vemos, aliás, não travestido (ao menos não tanto) nas outras revistas mais freqüentes em qualquer banca (e que, pasmem, nossas ‘cultas’ revistas ‘repudiam’; na verdade, fingem repudiar).

e, temos sim, pouca, mais muito qualificada arquitetura (daria para citar não um nem dois nomes, qualificados sim e muito imitados, mas vários, muito pouco publicados e não tanto imitados).

ao menos, qualificada em nossa ‘justa medida’.
claro, esta arquitetura não é espalhafatosa (onde, talvez, esteja o problema... para muitos) e nem ostenta um programa 'rico', nem materiais de anunciantes da revista e muita dela, não lembra nem de longe o que se publica, via de regra, alhures.
ora, e daí?

e, por outra, não se tem a coragem de publicar a maioria da merda que temos, justamente como merda. criticando-a. o que se faz é justamente publicar a merda como se merda não fosse.

as revistas não devem só "espelhar". nem é o que efetivamente fazem (procuram, oportunamente constituir valores; e é isto que nossos hermanitos mais espertos operam; e tal é a estrutural pauta de nossas revistas – além do improviso, certa incompetência e ‘acaso’).

só devem “espelhar” se, em visão muito redutora e complacente, enveredarmos por aquela falácia de nossas elites, no descarte de seu papel (discurso oportuno; outro, quando, por outras, também se faz oportuno assumir alguma “frente mais paternal”).

sim, há diferenças entre AU e Projeto. diria que em certos aspectos uma é melhor do que outra. e, em outros, a outra é melhor do que a uma.
mas tais diferenças, não fazem a menor diferença. as duas simplesmente não cumprem o papel que lhes cabe.

por fim, meu caro. tenha ilusões.

7:13 PM  
Anonymous Anônimo said...

Alencastro, desculpe ter bagunçado seu blog, escrevendo onde não devia, mas agradeço sua dica. A edição n°10 da Projeto realmente foi a melhor de todas, bem minimalista.

12:23 PM  
Blogger Alencastro said...

É Gugala, o velho não erra uma!

2:06 PM  
Blogger Alencastro said...

Mas as laranjas são melhores que as bananas, não Alberto?

2:08 PM  
Blogger Alencastro said...

Continuo não as tendo... Creio ser um processo irreversível.

Mas, só para polemizar (e render mais posts!): acho a Quaderns chatérrima (produzida com dinheiro da viúva) e a El Croquis uma belíssima propaganda de arquitetos para arquitetos. Só isso. Que é bem feita, não nego, mas é marrom até a alma. Não há um ponto final ou vírgula de crítica.

Quanto aos nossos IABs, é piada né? Eles não tem arrecadação nem para pagar o salário da secretária, quanto mais publicar algo... E, se dinheiro houvesse, cá entre nós, não há nada mais corporativo e mediocre do que a mídia oficial.

2:21 PM  
Blogger Alencastro said...

Não tem nada, quem?. Mas aqui é assim mesmo: se o blogueiro não sabe o que diz, imagine só os comentaristas?

2:23 PM  
Blogger edison hiroyama said...

don´t worry, anônimo#1!
mas que preciso de mais tempo para ler o que aparece por aqui - isso preciso.

Alencastro têm seu mérito, ao conduzir (bem) a bagunça das polêmicas...

3:17 PM  
Anonymous Anônimo said...

As Laranjas são melhores, mas a maçã podre contamina o conjunto, remember. Quaderns: um bom negócio seria comprar pelo que ela vale, e vender pelo que ela acha que vale. El Croquis: mas afinal de contas, não é pra ser literatura para arquitetos mesmo? IAB: sem comentários.

7:29 PM  
Blogger Alencastro said...

A respeito da El Croquis, deixe-me explicar melhor. O problema não é para quem eles fazem, mas o quê fazem. E o que eles se propõe a fazer é o mais bem acabado portifólio do mundo: tudo é do bom e do melhor - desenhos, fotos, textos - sem a menor postura crítica.

11:30 AM  
Anonymous Anônimo said...

capito. concordo. espero que façam o meu um dia, thou...;)

5:20 PM  

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